Poema Lavrado a Quatro Mãos - Julio Cesar Gentil & Juan Manuel Terenzi

O poeta é o lavrador das palavras
que germinam pela terra fértil e escura,
a brotar num sentimento que é a lavra
no canteiro do papel que reformula
o uni-verso conspirante a seu favor
do poema que aflora no papel
como abelhas que produzem o seu mel,
operárias caprichosas ao labor.
O cansaço ainda resiste, cai a noite...
A enxada marca as mãos do lavrador,
o sol forte fere as costas com o açoite
de um sussurro que anuncia a própria dor.
O sucesso da colheita traz na enxada
a vitória frente à terra cultivada.

Insuportavelmente Humano - Julio Cesar Gentil

O homem dorme de seis a oito horas diárias,
porque não consegue aturar a si próprio,
integralmente, vinte e quatro horas por dia.

Céu?... Inferno?... - Julio Cesar Gentil

A todos os meus desafetos
que se consideram 'seres de luz'
e herdeiros do 'paraíso eterno'
eu lhes digo, nesse caso,
haverei de me conformar
com as profundezas do inferno.

Foguetes à Impunidade: PAZ NO FUTEBOL! - Julio Cesar Gentil

A torcida azurra - zurra, zurra -
nunca foi hospitaleira,
só vive a chorar amarguras,
é explosiva e fogueteira.

Avaiano fogueteiro:
não exploda a minha mão!
Guarde os fogos p'ra São Pedro
e p'ra festa de São João.

O jogo é ganho em campo,
como diz o mandamento.
O resto é puro delírio
do Miguel Livramento.

Avaiano feche a matraca,
pare de se vangloriar,
pois com quase noventa anos
têm só dois na série 'A'.

Eu sou apenas um torcedor
aqui do lado continental
que defende a opinião
da grande massa estadual.

O que importa é saber torcer
com amor e com alegria,
sem esse papo de foguete,
chororô e pancadaria.

O estádio não é um ringue,
ele é a casa do torcedor.
O local onde um time mostra
toda a força do seu valor.

Avaiano vê se respeita
as torcidas catarinenses:
Chapecoense, Criciúma,
Joinville, Figueirense...

E não fique bravo comigo
porque eu não te quero mal,
este poema é só mais um grito
pela PAZ NO FUTEBOL!

Chuva na Praça XV - Julio Cesar Gentil

Ninguém passa pela chuva
nessa praça quando eu passo.
Entre os galhos da figueira,
sabiás cantantes, chorosos,
acompanham os meus passos
a perderem-se entre as pedras
que ornamentam um verde espaço.
Habitat colorido
pelo vaivém dos sanhaços
a embrenharem-se destemidos
entre os cipós, as folhas e os cachos
(que se embaraçam e desembaraçam).
Há natureza em evidência:
plantas, pedras, chuva, pássaros...
Tudo aqui é reverência
a um reino verdificado.
Só mais um momento 'flaneur'
com os passos encharcados
pela chuva que umedece
essa praça quando eu passo.

Poema de Tanta Gente - Julio Cesar Gentil

Ao longo da minha vida eu andei por lugares e conheci muita gente que já esqueci e outras tantas que lembro sempre.
Eu já andei de ônibus lotado e comi os quitutes mais medonhos pelas ruas gordurosas; eu conheci muita gente: gente com dente e gente sem dente, gente bonita por fora e gente feia por dentro, gente que ajuda gente e gente que pisa na gente.
Eu aprendi a enxergar nessa gente, o bem e o mal que é posto em mim e moldou, pouco a pouco, a forma humana do louco na gente que eu já conheci.